Em menos de uma semana, para ser mais exata na terça-feira que vem, vou ver o meu nenê Harry Styles pela primeira vez ao vivo. O Pink Album (como inicialmente foi chamado) foi um dos albuns que definiram o meu ano passado. A exato um ano atrás o escutava no repeat porque poucas coisas faziam sentido como cantar alto Meet Me In The Hallway chorando sem parar.

Just let me know I’ll be at the door, at the door
Hoping you’ll come around
Just let me know I’ll be on the floor, on the floor
Maybe we’ll work it out
I gotta get better, gotta get better
And maybe we’ll work it out

Nessa época, não somente o álbum, mas a figura do Harry me lembrava alguém que eu queria muito esquecer. Esse disco que é lindo fala sobre solidão, vulnerabilidade, sentimentos e como não nos expressamos o quanto devemos por mais que a gente queira. Existem algumas músicas que sempre vão lembrar alguém. O álbum é tão completinho e coeso que em um conjunto de músicas que duram menos de uma hora você e o artista dividem uma experiência. Isto que pode ou não ser levado para vida acaba gerando uma compreensão e carinho por aquela pessoa que está cantando e fazendo você compreender que alguém sentiu exatamente o que você sentiu e sabe a dor do que você passou. Porém, transformando a dor em uma forma de ganhar dinheiro enquanto nós estamos chorando aqui como meras mortais.

Existem dois outros álbuns que podem definir o meu ano passado. A minha santíssima trindade, junto com o Pink Album, é o Melodrama da Lorde e o Ctrl da SZA. Duas artistas que admiro desde antes, mas que me fizeram criar um amor sem tamanho após seus trabalhos mais recentes. Não sei o que elas sentiram quando viveram tudo que precisaram viver para escrever músicas tão bonitas, muito menos as conheço para entendê-las, mas a conexão que você sente com um artista quando ele canta sobre as suas inseguranças mais profundas é algo que não dá pra se quebrar. E no meu caso, eu não quero que se quebre.

Um ano depois, me encontro completamente diferente da pessoa que era na época que ouvia essas canções no repeat. Hoje me sinto mais confiante, muito mais feliz e com a cabeça no lugar. Mas foi preciso viver tudo que vivi, sentir tudo que senti para ser quem eu sou hoje e as lembranças que quero levar desse período. Esses álbuns estão entre as lembranças mais importantes. Não consigo imaginar o que vai ser voltar para aquele momento durante as duas horas no show na terça-feira que vem, por alguns segundos até fico com receio de querer voltar, mas quando coloco para tocar Two Ghosts ou Woman não sinto o que sentia antes, consigo me identificar mais com a melodia do que sofrer pensando nas letras, mas me lembra de tudo que percorri para chegar até aqui. Aproveitar muito mais o que está ao meu redor e o que sinto dentro de mim, dentro do meu coração e não da minha cabeça, quando o refrão chega.

Em novembro é a vez da Lorde vir para o Popload, e mal posso acreditar que irei vê-la pela segunda vez, mas não consigo pensar em como estarei lá. O que irei sentir, com quem estarei dividindo esse momento até mesmo se vai fazer tanto sentido escutar Liability que um dia chamei de minha música por tantos meses do ano passado.

Says he made the big mistake of dancing in my storm
Says it was poison
So I guess I’ll go home
Into the arms of the girl that I love
The only love I haven’t screwed up

Enquanto para mim o Harry é o ápice do menino perfeito que sente tudo, mas pouco fala – o que me lembra muito uma pessoa que hoje em dia posso falar que esqueci – a Ella é uma pessoa que acho que se parece um pouco mais comigo. Ela é difícil, ela erra, ela fala, ela sente, ela vive, ela sofre, mas ela também sabe os seus limites. Ela sabe que precisa passar por todo um processo para poder tirar alguma coisa disso. Ela sabe que não adianta olhar para trás e fingir que não aconteceu, mas apesar de tudo ela também sabe quem é, sabe que está mudando e está ok com isso. Ela gosta disso. Eu gosto disso. E eu acho que ela e eu gostamos de quem somos hoje em dia. Alguém pode ter nos deixado muito mal, mas nós também sabemos que fizemos tudo que podíamos e hoje em dia podemos sentir livremente o que queremos sentir e isso é lindo.

O álbum da SZA que fala muito no álbum sobre agradar uma pessoa que já não te quer mais tanto assim, que pisa – mesmo que sem saber – na sua auto estima e não está tão presente na relação como você, acredito que da minha santíssima trindade esse foi o que deu suporte as todos os outros e também o primeiro que me definiu. Foi a identificação com a humilhação que me fiz passar para ficar do lado de alguém que amava, mesmo sentindo que essa pessoa não me amava mais, e é muito difícil mas muito bonito assumir para você e para os outros que você tentou muito mais do que deveria porque antes do seu orgulho vem o seu coração, tudo que você sente e acredita.

How could it be?
20 something, all alone still
Not a thing in my name
Ain’t got nothin’, runnin’ from love
Only know fear
That’s me, Ms. 20 Something
Ain’t got nothin’, runnin’ from love
Wish you were here, oh

Hoje em dia o Ctrl pra mim não é nada mais do que uma lembrança diária de que preciso me colocar em primeiro lugar, ouvir meus sentimentos, mas me amar acima de amar qualquer pessoa e saber que quem eu sou agora é melhor do que eu fui antigamente exatamente porque passei por tudo que passei e senti tudo que senti. A SZA pra mim é uma das mulheres mais bonitas, vulneráveis e interessantes da música atual e ouvir esse álbum de alguém que se sente tão inferior a qualquer outra pessoa é uma lembrança de como a gente acaba sendo tão exigente conosco, nos colocando tão pra baixo enquanto as outras pessoas nos olham com tanta admiração.

Espero que um dia alguém olhe para mim como eu olho para a SZA, admiro a Lorde ou sinto um amor imensurável pelo Harry, mas se isso não acontecer, tudo bem também porque hoje em dia eu posso não olhar para mim como olho para SZA, mas sinto uma admiração por tudo que passei e onde cheguei e consequentemente, aprendi a me amar muito mais. A música é algo tão puro quando ela passa uma mensagem honesta que às vezes a gente perde melodias bonitas com letras que saíram do fundo do nosso coração em meio a tanto som lançado só para consumo imediato. Por isso, apesar de tudo, ir no show de alguém que você admira é ainda uma das minhas experiências preferidas. É sentir a conexão com alguém que você nem conhece, ali em cima do seu palco e todo mundo ao seu lado, porque de uma forma ou de outra todos nós passamos por algo parecido juntos. Estamos unidos por algo maior além da música que é o simples fato de (se) amar, se lascar e continuar a viver.

Image: Jeremy Reed

Share: