House - Martin Canova

Quando era mais nova, muito mais nova, com uns quinze ou dezesseis anos sempre que brigava com a minha mãe eu sonhava em como seria morar sozinha. “Não vejo a hora de sair desse inferno“, pensava enquanto as lágrimas caiam no travesseiro. Ficava imaginando em que situação sairia da casa dos meus pais, onde iria morar, como seria, que bairro, com quantos anos, se já teria uma namorada (na época, achava que podia ser um namorado) e que vida iria levar. Idealizava tudo achando que aos 25 estaria rica e moraria em algum lugar super maravilhoso.

A realidade foi batendo e parei de imaginar as coisas com tantos detalhes, sonhar tanto e comecei a só pensar no futuro sem colocar esses planos como algo de imediato até porque, eventualmente, a relação com a minha mãe foi melhorando e comecei gostar da minha casa. Adorava onde morava, meu quarto com cara de quinze anos — mesmo já na casa dos vinte —  e toda a rotina que levava além de não precisar gastar dinheiro pra nada além do meu lazer. Quando mudei para São Paulo, e realmente morei sozinha pela primeira vez, minha vida era uma bagunça. Eu mal ficava em casa porque trabalhava demais e sempre estava fora, também não me sentia confortável e passei séculos só comendo na rua, sem nem ligar o fogão ou pegar uma água na geladeira. Meu quarto consistia em uma cama de casal, criado mudo, e o guarda-roupa embutido que já veio com o apartamento. Passei mais de um ano sem nem uma cortina e olha que a luz vinha direto na minha cara todo santo dia. Eu meio que odiava morar “sozinha”, não sei se é porque não considerava esse espaço minha casa ou só não ligava muito pra ele, mas ano se passou e parecia que o quarto não era habitado por alguém especial. Ele não tinha minha cara. Na verdade, ele não tinha uma cara.

Conforme os meses foram se passando a minha rotina mudou, adotei a Elena, troquei de trabalho, minha pós já não era tão presencial, cansei de dar rolês aleatórios e comecei a passar mais tempo em casa. Inicialmente, comecei a passar mais tempo só no meu quarto, mas logo isso se estendeu. Quando você passa mais tempo em um local é natural que você queira cuidar melhor dele. Tipo aquelas louças na pia que não te incomodam nos dias que você chega em casa só para tomar banho e dormir, mas no sábado ou domingo que você está em casa acabam sendo lavadas no meio da tarde porque de tanto você ir na cozinha elas começam a te incomodando. O tempo foi passando e desenvolvi um amor e carinho pelo local, e comprei uma cômoda, depois um espelho, ventilador, mesa de trabalho, dois quadros, almofadas, e meu quarto, agora com a minha cara, surgiu e logo depois começaram os meus planos para toda casa. Comecei a ter amor por lavar roupa (e até ter um dia específico para isso!), voltei a cozinhar, comprei formas e pratos diferentes e nesse sábado amanhã chega meu fogão novo. Ando ansiosa igual as criança esperando a manhã de Natal. Por ser meu primeiro fogão decente pesquisei em vários sites e escolhi um com timer, grill e tudo que tem direito para iniciar uma fase nova na minha vida. Como o apartamento é alugado não posso pensar em reformas absurdas, mas logo quero comprar uma geladeira, trocar as cadeiras da mesa de jantar, estantes, fazer uma hortinha vertical e plantinhas pra deixar do lado da rede, onde tenho duas mas que ainda não sei cuidar muito bem.

Foi aí que descobri: adulto não gosta de gastar dinheiro em balada, adulto gosta é de geladeira nova e umas prantinhas na varanda.
Aprendi que o nosso cantinho no mundo não se acha, se constrói, e aos poucos o meu vai ficando a minha cara.

Imagem: Martin Canova

lukasz-wierzbowski

Ando em um momento da minha vida que tudo que quero se contradiz. Ano passado, minha vida estava uma bagunça. Emocionalmente foi um ano cansativo, profissionalmente foi um ano bom, mas que poderia ter sido melhor porém, não de todo mal. Me fez descobrir o que quero para esse ano e todo o resto da minha vida, que há uns dois/três anos, anda fora de controle.

Quando o ano passado terminou percebi que estava cansada, mas cansada mesmo. Não só cansada do ano, mas de muita coisa na minha vida e percebi que outras metas e prioridades do início do ano foram embora. Atualmente, quero levar minha vida com o máximo de paz possível. Quero fazer da minha casa mais ainda o meu cantinho, principalmente por começar a passar muito mais tempo nela agora, quero cuidar mais de mim tanto fisicamente como mentalmente, quero focar totalmente no meu lado profissional ao mesmo tempo que quero viver e experienciar coisas novas. Quero viajar, mas quero juntar dinheiro. Quero trabalhar muito, mas quero ter tempo livre para os meus hobbies, amigos, para poder me inspirar e relaxar. Complicado né? Não dá pra ter tudo e isso todo mundo sabe. Não dá para levar uma vida plena, super balanceada, bonita e que realizada para todos os lados porque isso só existe no Pinterest, e tudo bem.

Aprendi que não tem como você ter tudo da sua vida no seu controle, e que sempre algo vai te dar uma rasteira e te fazer cair, mas você tem que estar preparado para lidar. Sigo no segundo mês do ano continuando a tentar achar meu equilíbrio, ainda em duvidas de como dar sentido para algumas coisas que eu quero muito – como guardar o máximo de dinheiro possível -, com muitas e muitas meta, mas realizada cada vez que risco algo da lista. Me vi levando uma vida mais calma em que cada detalhe é uma vitória, mesmo sendo pequena – ir na nutricionista começar a reeducação alimentar! comprar fogão novo! colaborar com sites! meu curso no MIS! – ou que só são significantes para mim.

Espero que as coisas continuem fluindo, mesmo que algumas acabem dando errado no meio do caminho, porque eu que sempre fui ansiosa, imediatista, estressada finalmente descobri como levar a (minha) vida mais saudável: devagar e sempre.

Imagem: Lukasz Wierzbowski

escrevendo-tinasosna

Essa virada de ano me peguei pensando no que muitas coisas significam pra mim. O meu emprego, meus sonhos, as pessoas que me cercam até locais que deposito pouco tempo, mas estão presentes na minha vida, e com isso pensei nesse blog. Pensei o que gostaria que ele se tornasse, o que ele foi, e o que ainda espero dele. Comecei a blogar quando tinha uns 12 anos, na época do weblogger que você comprava layouts ou aprendia a fazê-los e falava sobre a escola e seus problemas de pré adolescente. O nosso blog era nosso diário e um local de fazer amizades que passavam pela mesmo coisa que você em outro lugar e que você talvez nunca fosse conhecer de outro jeito. Desisti dele como qualquer pessoa desiste de tudo nessas fases de mudança, passei pela fase que todos os blogs eram uma possível forma de ganhar dinheiro, de que todos os blogs pessoais morreram e ficaram só os blogs falando sobre tudo menos sobre algo que a gente poderia entender ou associar.

Hoje em dia, acho que a febre passou, né? Quem queria blogar pela vontade de ganhar dinheiro já se mudou pro instagram, quem queria fazer um blog crescer, provavelmente, já o fez e voltaram os blogs pequenos, os blogs que formam uma família e que os comentários são pra aquecer o coração e é isso que me fez voltar pra ele, me fez ter uma meta pra 2017 que é voltar a usá-lo com frequência. É muito difícil administrar a vida no geral, as redes sociais, a saúde mental, os sonhos, e ainda um blog. Ele sempre fica como o último lugar que deposito a minha energia diária, mas vou tentar mudar isso. Vou tentar lembrar a mim mesma que tô falando pra mim, e fazer dele, novamente, um diário. Compartilhar meus pensamentos, meu dia a dia, meus sonhos, problemas, tudo que me sentir confortável pra ter um registro por aí. Uma lembracinha do que vivi e do que planejei/planejo viver. Deixar um pontinho meu no mundo que não esteja armazenado em uma gaveta de pensamentos e sonhos, mas compartilhado na internet e quem sabe com algumas pessoas, com vocês.

Imagem: Tina Sosna

road

O ano está acabando e com isso só consigo dizer: vai tarde. Vai muito tarde.

Se tem uma coisa que é comum nessa época é a reclamação de que o ano que passou foi difícil, cansativo, cheio de perdas, frustrações e que esperamos que o próximo seja melhor. Sem exceção, desde que me lembro consigo ver as mesmas lamentações online, mas acho que depois do que vivemos nada vai se comparar, ou pelo menos espero. 2016 foi um caso especial de que todo mundo se fodeu. Todo mundo. Não existe uma pessoa seja que não tenha tido uma perda absurda. Além do que perdemos como país, como estado, cidade ou como mundo nós enfrentamos momentos muito ruins na vida pessoal. Me atrevo a englobar a todos porque acho que esse é o exemplo perfeito de que estamos juntos, inclusive na merda. Nós perdemos tantas pessoas, tantas coisas, inclusive que tínhamos conquistado. Parece que voltamos umas dez casas para trás e não faço ideia de quando vamos chegar onde estávamos novamente. Foi o pior ano desse mundo? Felizmente, não, mas acredito que seja um deles.

Emocionalmente meu ano foi extremamente pesado. Parece que quando estava ficando na calmaria vinha uma tempestade e tudo virava um caos novamente e eu não sabia o que fazer. Acabo esse ano esgotada, porém vendo uma luz no fim do túnel que apesar dos pesares saio feliz, com muita lição e com uma esperança de que ano que vem vai ser bem melhor. Psicologicamente, não faço ideia de onde estou agora. Profissionalmente acho que avancei um pouco, cresci, mas chamo esse ano como ano de transição/formação, sabe? Um ano que decidi e concentrei que vou atingir novos objetivos e quais são eles, então comecei, aos poucos, os preparos pra isso. Apesar de parecer esperançoso ainda acho que grande parte disso só aconteceu porque tanta desgraçada estava acontecendo junto. Foi o pior ano da minha vida? Felizmente, não.

Não faço ideia de onde estamos ou onde estou agora. Ainda sinto que estou tentando me encontrar, como grande parte das pessoas, mas tento me manter otimista de que a tendência é melhorar. Que aos poucos as coisas voltem a funcionar, ir pra frente e que tudo que tenha sido perdido possa ser conquistado de novo. Todos nós perdemos muita coisa, eu perdi muita coisa, mas nunca perdi a esperança.

P.S.: Estou cogitando fazer uma lista com os melhores do ano em algumas categorias como livros, séries, filmes, podcasts e etc. Acredito que ela só sairá ano que vem porque viajo no final de semana, mas caso vocês façam o mesmo, coloquem o link da de vocês aqui.

Feliz Natal e Feliz Ano Novo. <3

Imagem: Théo Gosselin

TAG: Wanderlust

8 comentários

buenosairesBuenos Aires, 2014

Faz muito, mas muito tempo que eu não faço uma TAG nesse blog que honestamente, nem lembro a última. Esses dias estava no blog da Taís e me deparei com essa tag maravilhosa sobre um dos melhores assuntos do mundo: viajar. Não teve outra e eu tive que copiar. Não vou taggear ninguém porque acho que nesse tempo atual de blog ninguém mais faz isso ou posta com frequência mas sintam-se livres pra fazer e caso façam, me avisem. Vamos lá:

1: Quando e pra onde ia o seu primeiro avião?
Provavelmente antes de um ano de idade porque sempre vi todos minhas muito pequenininha em Brasília e Porto Velho. Nasci em um e morei quando bem pequena em outro daí fazia bate volta sempre pra ver minha mãe e meu pai.

2: Para onde você já foi e gostaria de voltar?
Acredito que todos os lugares que já fui, dentro e fora do Brasil, eu gostaria de voltar, mas atualmente entre todos que visitei queria muito ir pra Nova Iorque novamente. Tá dando uma saudade absurda de lá.

3: Você está viajando amanhã e dinheiro não é problema. Pra onde você vai?
Iria pra Islândia, sem sombra de duvidas, mas morro de medo de não voltar (porque eu sei que não iria querer) então já que dinheiro não é problema eu iria pro leste europeu e depois pra lá. Provavelmente já estaria planejando outra viagem também.

4: Método preferido de viagem: avião, trens ou carro?
Avião por ser mais rápido e ter essa saudade de sair do país que ando tendo, mas nunca viajei de trem e quero muito, se possível logo e vendo paisagens lindas. Viagens de carro são mega agradáveis e desde que me mudei pra São Paulo peguei gosto por elas e pelo famoso bate-volta ou só uma fugidinha pelo final de semana.

ilhadepascoaIlha de Páscoa, 2014

5: Site preferido de viagem?
Blogs de gente que viaja, principalmente os que dão muita dica, e sites de promoções (óbvio)

6: Para onde você viajaria só pra comer a comida local?
México, França e Itália.

7: Você sabe seu número de passaporte de cabeça? 
Sei o início mas me embolo no meio.

8: Você prefere o assento do meio, corredor ou janela?
Janela sempre. Corredor é ok porque sempre levanto pra ir no banheiro mas assento do meio acho que ninguém gosta, né?

9: Como você passa o tempo quando está no avião?
Querendo ou não, eu durmo e geralmente, antes de decolar.
Se a viagem é mais longa consigo ler um pouco de livro, se tem série/filme vejo alguma coisinha, mas geralmente abro um livro por meia hora e o resto passo dormindo/escutando música.

10: Existe algum lugar pra onde você nunca mais voltaria?
Não, eu não odiei nenhum pra não voltar, mas acho que deixaria pro fim da lista Washington, D.C. que já visitei e achei lindo mas não voltaria tão cedo e Santiago, no Chile porque já fui duas vezes em um curto espaço de tempo.

dsc_1192Vienna, 2012

Que saudade de viajar que deu. Pegar um avião pra qualquer lugar, provar comidas novas, olhar cenários e pessoas diferentes e aprender muito enquanto você se emociona como o mundo é lindo. Ô gente, como alguém não gosta de viajar? Ficar em casa é ótimo, mas voltar pra casa é melhor ainda principalmente trazendo experiências como essa.